Criamos para dias de sol. E para dias de tempestade.

Criamos para dias de sol. E para dias de tempestade.

A vida não acontece num ritmo constante. Há dias leves, claros, em que tudo parece fluir. E há outros — mais densos — em que o corpo pesa, a mente abranda e o mundo pede menos.

Durante muito tempo fomos ensinados a mostrar apenas os dias de sol. A celebrar a produtividade, a ordem, o entusiasmo. Mas a verdade é simples: a vida também é feita de dias de tempestade. E eles não são um erro.

A madrugada que não esquecemos

Na madrugada de 28 de janeiro, a tempestade chegou com uma força que nunca tínhamos vivido. Ventos a mais de 200 km/h. O som constante, agressivo, impossível de ignorar. A sensação de não ter controlo.

Não foi apenas uma noite difícil. Foi uma experiência que ficou gravada no corpo.

Dias depois — e ainda hoje — basta sair à rua. O caos visível leva-nos de volta a essa madrugada. Árvores caídas, estruturas feridas, marcas que não desaparecem depressa.

Nas pessoas com quem nos cruzamos, a tempestade continua presente. Há quem tenha perdido muito. Há quem viva na incerteza do futuro das empresas onde trabalha. Há quem diga que “não foi nada”.

Mas arrisco dizer isto: 100% das pessoas foram afetadas de alguma forma. Nem que tenha sido pelo medo. Pela sensação de fragilidade. Ou pela consciência súbita de que tudo pode mudar muito depressa.

Os dias de sol

Os dias de sol são aqueles em que a casa parece respirar connosco. A luz entra sem pedir licença. O tempo estica.

Criamos para esses dias. Para celebrar, para acompanhar, para estar presentes sem ocupar demasiado espaço. Criamos peças que convivem com a alegria, com os encontros, com os momentos bons.

Porque os dias felizes também merecem cuidado.

Os dias de tempestade

E depois há os outros dias. Os dias em que nada corre como planeado. Em que o silêncio é necessário. Em que o corpo pede pausa e a cabeça pede abrigo.

Criamos também para esses dias. Não para resolver. Não para consertar. Mas para amparar.

Porque o que nos rodeia influencia como nos sentimos. Os materiais, as texturas, os objetos — tudo comunica. E nos dias menos bons, essa comunicação deve ser suave.

Criar com consciência é aceitar a vida inteira

Mais do que nunca, para reerguer, Leiria precisa de ajuda. Ajuda prática, sim. Mas também de algo menos visível.

No meu caso, essa ajuda passa por conseguir continuar. Continuar o caminho da Ervilha. Continuar a criar. Continuar a comunicar.

Preciso de acreditar — e de saber — que o mundo precisa desta forma de estar. Desta forma de comunicar o amor pelas pessoas e pelos espaços.

Criar com consciência é aceitar a vida inteira. Com ciclos. Com luz. Com sombra.

Acreditamos que o verdadeiro valor está no que permanece. No que não grita. No que aguenta o tempo, o uso e as mudanças.

Criar com consciência é aceitar que haverá dias de sol. E dias de tempestade.

E que ambos merecem ser vividos com cuidado.

Criamos para dias de sol.
E para dias de tempestade.

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